domingo, 19 de fevereiro de 2017

QUEM TEM DIFICULDADE PARA AMAR, É QUEM MAIS PRECISA DE AMOR


QUAL AMOR?


Viver é inevitável e sei que não posso ser curada de ser eu mesma.
Mas me diga, conhece alguém que possa lhe ajudar além de você mesmo?
(Parece clichê de livro de autoajuda ,eu sei). Duvido, você tem a consciência de que a estrada continua e nela você vai só, ninguém vai lhe dar a direção.
A estrada é longa, a solidão dura, pedras e tropeços. Você precisa ter consciência de suas escolhas, ser responsável por cada passo dado.
Você tem medo, mas o importante é abandonar o passado.

Eu poderia lhe aconselhar a sair da frente de seu espelho sombrio e simplesmente olhar em volta e colorir sua vida. Parece fácil, mas não é, pois o que está em volta você já conhece e está dentro de você e este emaranhado de sentimentos, emoções, dores, alegrias, são difíceis de desembaraçar, afinal você levou uma vida inteira dando esses nós.
A vida é de quem lhe dá licença que ela lhe invada.
No caminho não existe placas, mapas, roteiros, indicações, e o que é pior, nem GPS ou Google.
Ouse, brilhe, e aprenda com seus erros. Conhecimento não é o mesmo que sabedoria.
Não procure a perfeição, a vitória, a invulnerabilidade; você é totalmente vulnerável e esse é seu maior desafio, sua maior coragem.
E coragem é vencer o medo de querer-se bem.
Entenda, nada que se passa na vida é banal, sempre tem alguma coisa acontecendo. Olhe para o seu lado.
Também não existe o certo. Você nunca vai estar certo, como nunca vai estar mais errado que os outros.
Agora pegue uma espada bem grande e afiada, levante-a bem alto e gire, gire várias vezes, corte todos os fios que lhe ligam ao passado, corte todos os arrependimentos, medos, eles estão no passado. Um guerreiro com a espada na mão, não desiste da luta. Para terminar esta guerra, arranque a carcaça e abra seu peito com um único golpe. Liberte sua alma.
Tudo são escolhas, pode escolher ser uma vítima, ou ser o que quiser.
A felicidade está na caminhada, passo a passo vencido, sob o sol forte, na noite, na chuva, no frio ou nas belíssimas paisagens que você pode ver no caminho, cabe a você, escolher o que seus olhos vão ver.

Entendi que não existe início, nem chegada, a ordem não existe.


Madu Dumont

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

APRENDENDO A ME AMAR


MINHA HISTÓRIA


Tento fazer nascer a minha história, mas constato que minha história mais explícita tem segredos inconfessáveis. Passo a mão pelo meu corpo em um desejo de carícias, sinto a pele eriçada pelo frio e experimento a maciez da seda misturando-se aos primeiros ensejos da luz de um outro hoje. Talvez agora eu possa chegar à verdade, talvez a verdade seja este encontro particular e inexplicável. Naturalmente, vou sentindo-me tão interior e tão íntima que não existe agora nenhuma palavra que possa me definir.  Às vezes sinto vontade de me enganar, mas neste momento quero viver minha vida incipiente, sem ilusões, aquela que respira fundo e bem no fundo. Quero entender quem sou.

Percebo que até agora caminhei, de fracasso em fracasso, de vitória em vitória, e me reduzi ao que sou, presa a um corpo que nem sempre me acompanha, que demonstra, tantas vezes, ter vontade própria e me deixa apenas migalhas para saciar minha fome absoluta. Minha nudez é necessária, é como se eu ultrapassasse o último obstáculo que me separa de mim mesma. E no esforço de não me enganar, concluo que estou incompleta.

Sempre conheci a culpa. Era fácil me redimir - a derrota me satisfazia, era um alento. E usava o flagelo, o castigo, como salvação. A derrota me satisfazia porque estava ligada a todos os fatos que foram, estavam ou seriam a causa de minhas emoções e deixavam à mostra minhas fraquezas.
Penso agora em meu maior defeito, a prepotência. Foi com ela que tentei me esconder da vida, foi ela que me fez manipular minhas próprias emoções e acreditar conseguir viver na superfície, sem mergulhar em sentimentos reais e que, vejo agora, sempre existiram. Foram essas as minhas escolhas. Escondi tanto, tanto, tanto, minhas dores e meus amores até acreditar-me incapaz de amar, principalmente a mim mesma.

Quero pensar no amor. Esse sentimento incompreensível e negado sempre solidificou emoções no campo físico. Foram esses os desacertos que me fizeram viver até hoje. Foi esta a grande crueldade que pratiquei comigo. Olho em volta, o hoje desvirgina o céu e é lindo, acontece ao meu redor o tempo todo, é a vida. Esta é a vida real. É a minha chance, minha oportunidade de viver o amor,( primeiro por mim mesma) para que perca o medo e me dê o direito de sonhar e errar e “errar” em meus sonhos. Apagar para sempre a personagem criada na dureza do fio da lâmina, na indiferença, na superfície da matéria.

Sei que amo, mesmo sem saber, mesmo sem dizer, porque amor é só sentimento e com amor não se paga, é dado de graça, é levado por este vento que canta, não tem definição em dicionários, não tem regulamentos. Amor não se troca, não se conjuga, ama-se porque se ama. Amor é amar a tudo, é amar a nada, e se fortalece apenas em si mesmo. Sinto que o amor é capaz de vencer a morte, por mais que se “morra” (e se mate) de amor. Talvez seja o amor apenas um instante, um instante de sentimento, de conclusão, de lembrança, e vários outros instantes que não me lembro, ou não conheço, instantes sem razão.

Neste instante, uma luz diferente pousou em minha pele, além da pele, nos músculos, nos nervos, no sangue, nos ossos, uma luz branca, vermelha, alaranjada, o céu, o infinito, girou em torno dos meus pensares feitos de sonhos e de ventos.

Descobri que tenho destino (ou salvação... ou já me salvei).

Vou vestir um vestido de seda azul.


Madu Dumont

domingo, 15 de janeiro de 2017

EU TE AMO


Meu erro foi não ter olhado dentro de seus olhos antes.

Não ter sido capaz de conquistar você, de tentar viver com você, ou ao menos mais perto por mais tempo.

Sei que nós poderíamos ser felizes. Impossível não ser, pois foi dentro de seus olhos que consegui enxergar uma galáxia cheia de estrelas desconhecidas, e 
que eu queria ter tempo para conhecer, para descobrir e entender cada uma delas. Foi olhando seus olhos que assumi seu lugar. E sei que você também viu meus olhos e que não esquecerá nem um só instante de nós dois, mesmo que tente fingir que não se recorda. Foram suas as palavras de que naquele momento morreria feliz. 



Não consigo aceitar a ideia de não ter uma segunda chance.
Serei feliz com os fragmentos de seu tempo, pois este será um tempo, em que você será inteiro, eu e você. Não vai existir o mundo lá fora. E outra vez seus olhos, e outra vez a felicidade, a inteiração, a forma como faz meu corpo reagir ao seu toque. Quase que inacreditável para mim. E é nesse momento que consigo ler a sua alma, seus pensamentos (o que tanto te assustou). E sei que cada vez que você se for, tudo terá sido tão grande que a vida para mim valeu a pena. 
Por favor, não se amedronte é apenas uma alma falando a outra. Não existe mais ninguém nesse nosso momento. Não existe dor, saudade, culpa, medo, somos eu e você, nus um para o outro, almas nuas, corpos nus. Mas apenas nós dois. Nem a música pode fazer parte deste encontro.

Quero nossas histórias fragmentadas e mutiladas, elas me bastam, pois jamais significarão uma dor. Ter você em mim, perto de mim, é felicidade. Pode ser só por um instante. Ninguém é feliz o tempo todo.

Quero me deliciar ouvindo suas histórias, quero te dizer das minhas mutilações e das minhas descobertas observando o mundo. Quero aprender o seu mundo.

Quero que você se delicie com a liberdade de brincar com meu corpo, da maneira que quiser, e eu com o seu, nos tornando um dentro do outro.

Peço-lhe, não me deixe em um labirinto sem saída, porque não tenho medo e vou entrar na porta que vai me levar outra vez à vida, cada vez mais forte, e você pode não estar lá. E eu quero que esteja.

Decidi te mostrar o meu melhor lado, aquele que guardei só para mim, mas que assustada percebi que as estrelas dentro dos seus olhos podem ver. Hoje resolvi te mostrar meu lado oculto do amor, sem medo, puro e genuíno. Hoje resolvi te mostrar um eu que só eu conheço, retornar àquele momento em que fui o nada, quando nasci pela primeira vez  e com o correr dos anos, meus outros vários renascimentos.

Minha mente nunca será capaz de compreender o infinito, (apesar de você pensar que sei tudo, posso lhe garantir que nada sei) nem sequer entender verdadeiramente os sentimentos que nos possuem, que se tornam senhores de nossas emoções. Mas compreendo que tudo tem uma lógica (por mais particular que ela seja). E uma das poucas coisas que sei é exatamente que você: você mesmo... sabe muito mais do que demostra ou permite que os outros vejam.

Temos o dom da imortalidade, e acredite sempre, que se você não gosta de quem você é; eu gosto. Creia que vale a pena gostar de você. E esse gostar vem de sua alma, sua pureza, singeleza. Você é muito, muito mais que imagina ser. Sinto inveja das coisas e das pessoas que podem viver ao seu redor. Sinto inveja da caneta com que você escreve, da roupa que veste, da água que bebe.

Hoje trouxe você definitivamente para minha casa: comprei uma planta, que tem as folhas claras como a sua pele, que é suave e simples como você, e sensível, muito sensível, precisa do sol e da brisa, precisa ser cuidada, ser amada... Prometo que conversarei com ela todas as manhãs. Talvez faça dela minha confidente.

Quero que você entenda e acredite que não existe dor no que sinto; toda vez que olhar para essa planta, sua lembrança me trará um prazer exato, o maior e melhor que já senti, quem sabe até um orgasmo. O prazer da felicidade, pois se faço parte de um todo, também sou ele de alguma forma.

Queria terminar esta carta de uma maneira diferente, mas nada, não consigo pensar em nada, nada me vem à cabeça além de uma palavra pela qual tenho um grande respeito e sempre tive temor em pronunciar. A palavra AMOR.


Madu Dumont

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O TUDO


APENAS PENSO


Sim, penso em um fato qualquer – uma chegada, uma partida, um momento, um carinho, um toque – coisas simples que acontecem no correr do dia – todos os dias e que fazem parte do todo que somos, do nosso todo que podia ter sido outro, mas é este.
Penso no amor que um dia compartilhamos e hoje procuramos desesperadamente sem saber se um dia será possível reencontrar.

Penso na loucura, aquela que sou eu e não sei quem sou, aquele que é você, acreditando que é de verdade. Porque a loucura é linda, pois ela é livre, ela voa, ela sonha, ela constrói castelos em que podemos nos esconder da loucura que não é loucura, é a insanidade da destruição.

Então penso nas montanhas que já estão no passado, no vento cantando como um corte no ar, penso quando vi pela primeira vez a nuvem entrando pela minha janela e eu sentindo em minha pele sua suavidade. Nessa hora penso na saudade do que não mais posso ter, ouvir ou ver. Na liberdade dos sonhos quando tentava descobrir qual a língua do vento que só o topo da montanha entende.

Penso na vida sem afeto, quando a gente acredita que é amor, apenas porque o outro sabe dizer, mas não viver. Penso na emoção do momento criação que pode ser amor ou vingança.

Então penso na delicia da água na garganta da sede e percebo que sei coisas demais, mas é o desconhecer que me habita.

Penso nas variações da luz, a do sol e a da lua. Muita sombra ou pouca sombra: tênue, difusa, pronta para os amantes.

Penso na verdade, deturpada ou incompreendida toda vez que é dita.

Penso no homem e no quase nada que finge viver, quando vive... 
E penso no tempo, que vagueia em lenta delicadeza e que o homem tenta alcançar, mas lhe foge entre os dedos e o faz equivocar.

Penso na nossa indolência diante da força dos sentimentos e de como não sabemos lidar com eles.

Penso no olhar, e no que dizem os olhos que não sabem ver.

Penso no filho que tive e naquele que não nasceu.

Penso que estou grávida de mim. Vou nascer mais uma vez, ou já nasci?

Apenas algumas coisas entre as coisas que penso.


Madu Dumont

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COMO É SOLITÁRIA A MADRUGADA





Como é solitária a madrugada...  bastava uma alma, mas aquela alma verdadeira que uma noite te fez sonhar, que você admirava... para te dizer algumas palavras, talvez ler um poema, até que o som suave daquela voz, que se parecia mais um sussurro, ou uma música, embalasse seu sono, ao invés de transformar o silêncio em uma escultura.

Amenizasse a angústia da ausência de todos os sons que se aquietam quando as luzes se apagam e apenas lá longe, distante da janela, você ouve os passos de um homem, ou o latido de um cão.

Como é solitária a madrugada quando surge um desejo patético e insensato de voltar no tempo e sentir a mão que já te acariciou. O calor do corpo que já se aconchegou ao seu. Mas você já não tem como procurar aquela alma da qual já não se sabe nada. Aquela com quem você podia falar de coisas como a lealdade, o amor e até sobre a morte.


Será que vale a pena pensar no que foi feito do amor? Não só do seu amor, mas do amor do homem, que se tornou tão feio, vazio, e tão só? Por que dói tanto olhar o mundo quando amanhece e você descobre que o amor morreu. Morreu de tédio, morreu de velho, morreu de uma doença incurável.

Como é solitária a madrugada onde esses pensamentos se instalam e você só quer se dobrar sobre você mesma, esconder o rosto com as mãos e chorar, e o corpo estremecer, e as veias das mãos tremerem e descobrir que não chora só por você, chora pelos homens que já não sabem amar, chora e não tem mais um braço que te pouse sobre o ombro e te console a falta do amor humano, que te convença que o mundo e os homens ainda podem se salvar.

Como é solitária a madrugada diante do desejo de ainda sentir um carinho e de voltar a dormir aconchegada.

Hoje a saudade tomou conta de você... Na solitária e silenciosa madrugada.


Madu Dumont

Para Rayane

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O ENCONTRO DA MORTE E DO AMOR


A nossa única defesa contra a morte
é o amor

 Saramago


O AMOR E A MORTE

Até um tempo de nossas vidas onde a morte, (quando muito) era palco de nossas investigações infantis. O amor não, nós o conhecemos desde nosso primeiro momento.
O tempo passa rápido e começamos a buscar entender as dores, da morte e do amor, pois um dia elas nos atingem.

Então quem era importante, talvez importante demais, se vai e deixa o vazio do amor e da morte, e nós como um inseto preso dentro de um vidro ou como uma flor de interior, sem raiz e girando em busca da luz ou da liberdade, não sabemos qual direção tomar.
Então pensamos: estamos vivos aqui, mas não conseguimos ver o filme até o final, não sabemos como termina. Alguém por favor destampe este vidro para que possamos voar, plante esta muda em um jardim, para que nossas flores possam nascer, para que nós possamos criar raízes novamente.
O início é sempre mais difícil, às vezes acontece uma vontade insensata de pegar o telefone e simplesmente pedir ao nosso amor um conselho, dizer de uma alegria, de um sucesso, ou até mesmo de uma dor. Tem momentos que queremos apenas dizer “eu te amo”. E este início deveria saber a tortura que é.
Viver o momento é certo e belo, mas quando ele se torna impossível, parece que a falta consegue ser ainda maior e nós nem sabemos o que isto significa. Sabemos apenas que precisamos de anos para entender a duração de um único dia.
Quanto à vida... ela vai seguindo seu tempo, acontece o mesmo que acontece todo dia, mas  parece que o amanhecer é sempre anunciado por uma luz desbotada, suave e reconciliadora que nos trás a consciência da brevidade do tempo. Uma luz que anuncia o fim irrevogável de um ciclo da natureza, de um trecho de nossas vidas.
Se alguém pensa que estou a falar de tristezas, não. Tristezas não, talvez um susto silencioso quando percebemos que o tempo passou rápido demais e o que era dor, tornou-se lembrança. Só nunca deixou de ser amor.
A questão mais importante que entendemos é mesmo o tempo. Descobrimos que ele passou por nós, escorreu entre nossos dedos, chegou a parecer um tempo perdido... Aí é que nos enganamos, o que fizemos com o amor que sentimos ainda vive dentro de nós, assim como aprendemos a lidar com a saudade, com a vontade de falar e ouvir. Com aquele rosto que ficou desenhado em nossa lembrança e que por mais esforço que façamos, (como uma foto antiga), vai aos poucos esmaecendo.
Nada foi perdido, pois cada um dos nossos amores que partiu, deixou de ser apenas mais alguém, hoje vive dentro de nós. E nós, idiotas, ainda perdemos tempo pensando na dor, até descobrir que são eles, esses amores e todos os outros que vieram ou virão, e melhor... na verdade somos nós mesmos a alegria da luz de todo dia.
O vidro se abre, voamos outra vez. Voltamos a viver no jardim, deixamos uma cicatriz no chão de terra e sentimos a flor que nasce, mas desta vez, na nossa pele.


MaduDumont

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PERDOE-ME SOLIDÃO


PERDOE-ME SOLIDÃO




Perdoe-me solidão por não ter respeitado você.

Perdoe-me por transformá-la em uma louca aventura, gostosa é verdade... Mas fiz você sangrar.

Perdoe-me por ter gostado desta aventura, rápida demais, superficial demais, sem deixar de ser de alguma forma dolorosa.

Perdoe-me solidão, por tentar fazer com que você se transformasse em um encontro, quando eu já sabia bem antes que não seria assim.

Perdoe-me solidão por desafiá-la, por acreditar que eu era maior e poderia esmaga-la.

Perdoe-me por fantasiá-la com uma máscara de prazer, que na verdade era apenas dor camuflada por um sexo intenso, que durou tão pouco e ficou tão mudo...

Perdoe-me solidão por romper com seus limites e fingir acreditar em uma verdade, que não passava de uma tentativa de me esconder sem me lembrar do sentir.

Perdoe-me solidão por não ter percebido que você era um desamparo que gritava por socorro.

Perdoe-me ainda, por não ter permitido a você tornar-se o poeta da sensualidade.

Devo implorar seu perdão por não lhe mostrar o quanto era importante para nós, entender, que para ir além, precisávamos sentir um inseguro tremor nas mãos ao nos despirmos. Por não transformar cada carícia em uma tarefa de titãs.

Como falhei com você quando não lhe disse que havia um feitiço naquele primeiro roçar de lábios. Na loucura do toque que faz arder a pele como se fosse água-viva.

Perdoe-me solidão por não ter dito que as palavras são segredos sussurrados.

Perdoe-me por não lembrar-me que roupas eu usava, ou onde as deixei.

Perdoe-me solidão por não ter avisado que o cheiro da pele, do hálito, do suor, são fundamentais, assim como a textura da pele e o roçar dos corpos.

Mas perdoe-me principalmente por não ter lhe dito que nada é mais importante que o olhar. Aquela luz que reflete lá no fundo, e fica guardada para sempre na memória e pode salvar uma alma.

Perdoe-me solidão.

Perdoe-me por não me lembrar do seu nome!


Madu Dumont



sábado, 31 de dezembro de 2016

CARTA A ALGUÉM QUE NÃO CONHEÇO. FELIZ 2017



Não sei quem é você, como você não sabe quem sou, apenas nossas dores se assemelham.




Algumas coisas são inerentes à nossa vontade e nos pegam desprevenidos ou simplesmente inocentes, e tornam-se inesperadamente de um tamanho que não conseguimos dimensionar: a dor, a solidão, a morte... mas também tem a beleza, o sublime e em alguns momentos, a felicidade.
Estranho, que da mesma forma que surgem, nós as perdemos. Nesse momento resta-nos a poesia pessoal. Chego a perguntar se ela é suficientemente forte para nos sustentar... Aí descubro como é importante chorar, chorar muito, pois o processo pelo qual nos tornamos humanos foi doloroso demais.
Chorar por não poder acreditar tanto, e é tão bom acreditar... chorar porque em algum momento temos que abrir os olhos para a realidade, e ela geralmente se finda na maior e mais dolorosa lucidez de nossas vidas: no sentimento de que tudo que fizemos, desde o nosso primeiro pensamento que começou ardente, quando éramos fogo, foi se extinguindo e se transformando em cinzas.
Chorar bastante, chorar muito, por não conseguirmos amar se não for apaixonadamente. Chorar muito, exageradamente, até os olhos doerem, porque sabemos que daqui em diante, choraremos muito menos.
Agarrarmo-nos novamente à nossa poesia pessoal e entender que fomos além porque não tivemos medo. Porque nos aventuramos, não uma, mas inúmeras vezes. Chorar porque sabemos que vamos nos aventurar outras vezes, que este medo e esta dor vão passar e serão lembranças ou quem sabe, esquecimentos.
E outra vez nos agarramos à poesia. Li uma vez: “Pode haver uma seriedade mais séria que a seriedade poética? Talvez seja este o fio que nos liga ao universo e nos mantém vivos (ao menos comigo é assim), preciso da força real da poesia. Preciso dela contra o veneno irreal do supérfluo, do medíocre.

A dor vai passar, tudo vai passar, e por isso não podemos fugir quando alguém começar a nos compreender. Não podemos usar como muleta a cegueira do outro como segurança ou liberdade.
Só precisamos esgotar nossas dores, mergulhar bem no fundo dela, para que quando conseguirmos emergir, possamos voltar a arder como fogo e aventurar, e voar, voar bem alto.
Comprei um lindo anel de lápis-lazúli, onde na pedra tem o desenho de uma fênix. Sei que em breve terei coragem de usá-lo, quem sabe amanhã, como um símbolo.
Voltaremos a ser as pessoas para quem a liberdade e a aventura nunca foi demais. Voltaremos a fazer as viagens para as regiões desdenhadas de nossas almas e faremos as pazes com todos os que somos nós.

Talvez seja isto que desejo a você, alguém que não conheço, que não sei quem é, que não tenho idéia de como é seu rosto, que nunca acariciei seus cabelos, nem sei se são macios, mas principalmente, nunca vi a luz de seus olhos, que pode também vir a ser uma lembrança, ou um esquecimento. E por favor, não me pergunte por que? Talvez seja apenas mais um capricho da poesia.
31 de dezembro de 2016 - Feliz Ano Novo

Madu Dumont